Há muito tempo, nosso acesso aos eventos sociais era unilateral: os livros apresentavam os fatos a partir da visão do colonizador, uma visão ditatorial e antidemocrática que para nossa ingênua imaturidade não passavam de fatos povoados de “bravos heróis”, distantes da nossa realidade. (Alguns desses heróis tiveram sua representação na literatura brasileira do século XIX, durante o Romantismo). Até mesmo nossa visão de herói era questionável. Afinal, em que arquétipo de herói se enquadram os personagens dos eventos históricos na sociedade contemporânea, ou melhor, o que os torna heróis: sua história ou seu drama, sua ousadia, sua tragédia ou quem sabe sua comicidade? Depende de a quem esse herói está representando, de que lado ele se encontra: do colonizado ou do colonizador.
A partir da conquista da liberdade de expressão, da democratização dos eventos sociais, a história perde sua versão romântica, e passa a ser observada com mais criticidade. Essa visão crítica da história impulsiona a criação da obra literária realista, e sua interpretação pode ser feita a partir de diferentes perspectivas: do autor, do descendente, do expectador, do confessor, do colonizado/dominado, do colonizador/dominador e do historiador.
Paul Veyne afirma ser a história assim como o romance uma narrativa de eventos simplificados, organizados e sintetizados. E essa síntese narrativa é tão espontânea quanto a da nossa memória quando evocamos o passado. A narração histórica situa-se para além de todos os documentos, já que nenhum deles pode ser o próprio evento. A história nos interessa porque narra, é anedótica, assim como o romance. O que diferencia a história do romance é que a história é diegesis interessa a verdade, e o romance é mimesis, interessa a narrativa.
Com isso podemos afirmar que tanto a história quanto o romance são respectivamente mimesis e diegesis; que à Literatura cabe o papel de estreitar os laços do leitor com a história e cultura, tornando assim mais fácil compreendê-la inserida em determinado contexto.
Romance histórico ou uma visão romanceada da história, O dia em que um Ngola descobriu Portugal é, ao mesmo tempo, romance e narrativa de um contexto. O que nos leva a estreitar os laços com a história e cultura angolanas. O autor, ango-brasileiro, apresenta-nos sua leitura dos eventos ocorridos entre os séculos XV e XVII, da história da colonização dos países africanos e, consequente tráfico negreiro para a mais nova colônia portuguesa, o Brasil como também aos países europeus. A história aqui simplifica, sintetiza e organiza os eventos. O romance dá conta daquilo que a memória histórica não consegue reviver, mas que é parte inseparável da cultura. Isto explica a presença e importância do contexto na criação da obra literária.
É um romance denso, com forte carga significativa, (O dia em que um Ngola descobriu Portugal) e uma viagem definitiva e decisiva para compreensão da parte noturna da história das três nações: Portugal, Brasil e África. O irônico de tudo isso é que Zumbi fez a viagem ao contrário. É como se num ato de utópica vingança o autor angolano quisesse mudar o rumo da história: Nganga Nzumba é preado em Angola e transportado ao Brasil como mercadoria num navio negreiro e, ao voltar às origens, tem o propósito de descobrir Portugal. O herói da resistência negra no Brasil, Zumbi dos Palmares nesse romance, é angolano Nganga Nzumba filho da rainha escravagista Njinga Mbandi. Aqui no Brasil consegue livrar-se da escravidão, funda Palmares e transforma-se em líder.
Esses expedientes criados pelo autor, João Portelinha D’Angola, inserem sua obra na categoria de romance paradidático, pois além das tantas informações disponíveis, instiga o leitor à pesquisa e, ao mesmo tempo envolve-o na trama narrativa, estreitando seu vínculo com a história e cultura das ex - colônias portuguesas. Uma vez que a história é uma narrativa de eventos, cultura e romance, pode-se dizer desse paradidático romance que ele se enquadra na categoria tanto de romance histórico quanto na história de um romance, por vezes com heróis trágicos, vencidos e vencedores que fazem parte da nossa história de país colonizado com muitas manchas indeléveis.
Um texto bem elaborado de “fácil acesso vocabular” (com muitas notas explicativas), iconoclasta e revelador.
Tereza Ramos de Carvalho.
domingo, 10 de outubro de 2010
O descritivismo pictorial em O DIA QUE UM NGOLA DESCOBRIU PORTUGAL
João Rodrigues Portelinha da Silva é romancista, contista, ensaísta, cronista e nas horas vagas, como ele próprio diz, poeta... Tomou como tema de seu romance exclusivamente consagrado ao emocionante relato da escravidão em Angola e no Brasil... Desde o começo de sua obra, teve a ambição de reproduzir com realismo o que foi o infame comércio de escravos, de maneira mais verídica e mais completa e nos mínimos detalhes, sem buscar evitar o que pudesse haver de banal ou mesmo de desagradável em tudo quanto lhe impressionara sobre a escravidão do seu continente e das duas terras que ama de paixão: Angola, a mãe preta, e o Brasil, seu filho mestiço... A obra é feita de observação puramente naturalista, com uma ampla parte psicológica das ações, bem como sentimentos dos personagens que retratou. Só pelas qualidades do estilista satisfez às leis da estética. Seu estilo é artisticamente formado, transparente e simples, fácil e claro, conduto pessoal, onde mistura realidade com ficção e, plasticamente expressiva. Mesmo nos seus livros anteriores de contos particularmente deixa entrever a sua mestria – que, aliás, de resto, angolanos e brasileiros lhe reconhecem -. Mas é nas descrições da natureza, da dor e dos sentimentos que tais qualidades se mostram mais sedutoras. Nos destinos humanos que pode descrever, sobra pouco lugar para alegria. Os quadros são mais frequentemente de cores muito sombrias, mas a força invocadora dos seus heróis jamais se enfraquece. Este romance constitui, sem dúvida, um tour de force como pintura audaciosa e amarga da vida que nos faz lembrar Brecht com suas pinturas sobre a escravidão no Brasil. Intitulou o seu primeiro romance O DIA QUE UM NGOLA DESCOBRIU PORTUGAL, pensando na epopeia do reino do Ndongo e de outros povos que constituem hoje Angola e a maior parte do Brasil. O personagem principal que Portelinha escolheu para o romance, foi à formosa e lendária rainha Njinga Mbandi e o Nganga Nzumba (Zumbi dos Palmares) que na ficção são mãe e filho, mas que na realidade, embora não sejam, viveram na mesma época, e têm a mesma origem, a dos Jagas. Nzambi transportado para o Brasil como escravo é um joguete dos que o cercam, desdenhado e maltratado, como todos os outros escravos, não obstante ser “filho” de uma lendária rainha angolana. Pode-se perguntar se fora do Brasil, noutra condição social, ele teria se tornado, verdadeiramente um grande herói na luta contra a escravidão como na realidade foi e, como de resto, é bem ilustrado e romanceado pelo autor. Na realidade são poucos momentos de ficção nesta obra... Poderíamos dizer que é a realidade romanceada pelo autor. As datas, os acontecimentos, os autores, os personagens, com exceção de Tchinjila, amigo e escravo de Nzambi são reais. No decorrer deste triste episódio, que foi a escravatura, o autor se compraz em descobrir a beleza da natureza humana; liberto de toda doutrina psicanalítica, permaneceu simplesmente poeta, e soube criar a poesia pura com um traço de grandeza.
As amplas perspectivas sobre o verde doce e fresco circundado de rios azuis que brilham em todo esplendor. Há magia e a beleza retratada das florestas africanas e brasileiras com toda sua pujança circunstanciada com toda sua fauna em movimento; o barulho dos gravetos secos caindo das árvores e dos macaquinhos que pulam de haste em haste fazendo algum barulho é de extrema beleza. Encontra-se aí um sentido da vida que não nasce de um gosto puramente literário, um esforço rumo à influência livre, plena e inteira da beleza... Tudo vibra no infinito e na calma do espaço.
A análise dos personagens alcança uma profundidade notável em sua rapidez e leveza, essas figuras humanas se harmonizam com a fuga das nuvens, com o cair das chuvas, com o aparecimento do arco-íris e o seu jogo de luz, do crepúsculo à aurora de um dia novo. Graças à arte tão sutil do escritor, as palavras ganham certa ressonância e a sua música assemelha-se à de um violino de raios de luz e de cores. No entanto, se quisermos considerar esta obra tão somente no plano artístico ou literário, mesmo assim, não deixaria de ser uma obra original e importante para pesquisa mais do que qualquer daquelas obras consideradas “romances históricos” que o precedeu sobre a temática escravidão em Angola e na América Latina.
É verdade que o “romance histórico” na América Latina e em Angola não começou propriamente com João Portelinha. Nem tampouco a temática sobre a escravidão. Aqui, na América Latina, por exemplo, começa com a publicação de O reino deste mundo (1949), do cubano Alejo Carpentier, que assim, como consequência, provocou um ciclo de intensa publicação, tanto de romances históricos tradicionais, nas décadas de 1960 e 70, como também em outros países, não sendo exceção Angola, pátria do autor, cuja publicação de Njinga Mbandi (1979) de Manuel Pacavira, confirma uma produção com muitas características do romance histórico. No entanto, os textos de O reino deste Mundo, de Carpintier, referem-se às populações africanas, sobretudo da Guiné, que foram para América como escravos, mas as populações de Angola sequestradas para este continente não são propriamente os heróis do caribe, onde se encontravam predominantemente as populações da Guiné. As populações de Angola construíram outras histórias de resistência na América Latina como a do Quilombo dos Palmares, no Brasil, liderados por Nganga Nzumba que, aqui, de uma forma inédita e magistral é abordada em estilo de romance por João Portelinha.
A publicação deste gênero de literatura cujas características formais e discursivas diferem em alguns pontos do romance histórico teorizado por Georg Lukács em seu Le roman historique (1965) propõe uma continuação do (sub) gênero que se desenvolve em diferentes partes do mundo e que é denominada como “novo romance histórico” de características estéticas e formais inovadoras, a ironia, a paródia e as categorias da carnavalização (Bakhlin, 1981, p. 104-7), que surgem, aqui, neste livro, com algumas das estruturas desse novo subgênero do romance. Desta maneira, é possível observar o trânsito de patterns literários no interior de um projeto cultural que inclui escritores em Portugal e Angola, considerando as produções de novos romances históricos: a Gloriosa Família: o Tempo dos Flamengos, de Pepetela, o Memorial do Convento, de José Saramago e, agora, O Dia que um Ngola Descobriu Portugal, do escritor e professor João Portelinha d´Angola, que pela sua singularidade, pode também ser comparada a Negras Raízes do premiado escritor afro-americano Alex Haley!
Drª. Helga Féti
Cantora, atriz, apresentadora e crítica de Literatura angolana
João Rodrigues Portelinha da Silva é romancista, contista, ensaísta, cronista e nas horas vagas, como ele próprio diz, poeta... Tomou como tema de seu romance exclusivamente consagrado ao emocionante relato da escravidão em Angola e no Brasil... Desde o começo de sua obra, teve a ambição de reproduzir com realismo o que foi o infame comércio de escravos, de maneira mais verídica e mais completa e nos mínimos detalhes, sem buscar evitar o que pudesse haver de banal ou mesmo de desagradável em tudo quanto lhe impressionara sobre a escravidão do seu continente e das duas terras que ama de paixão: Angola, a mãe preta, e o Brasil, seu filho mestiço... A obra é feita de observação puramente naturalista, com uma ampla parte psicológica das ações, bem como sentimentos dos personagens que retratou. Só pelas qualidades do estilista satisfez às leis da estética. Seu estilo é artisticamente formado, transparente e simples, fácil e claro, conduto pessoal, onde mistura realidade com ficção e, plasticamente expressiva. Mesmo nos seus livros anteriores de contos particularmente deixa entrever a sua mestria – que, aliás, de resto, angolanos e brasileiros lhe reconhecem -. Mas é nas descrições da natureza, da dor e dos sentimentos que tais qualidades se mostram mais sedutoras. Nos destinos humanos que pode descrever, sobra pouco lugar para alegria. Os quadros são mais frequentemente de cores muito sombrias, mas a força invocadora dos seus heróis jamais se enfraquece. Este romance constitui, sem dúvida, um tour de force como pintura audaciosa e amarga da vida que nos faz lembrar Brecht com suas pinturas sobre a escravidão no Brasil. Intitulou o seu primeiro romance O DIA QUE UM NGOLA DESCOBRIU PORTUGAL, pensando na epopeia do reino do Ndongo e de outros povos que constituem hoje Angola e a maior parte do Brasil. O personagem principal que Portelinha escolheu para o romance, foi à formosa e lendária rainha Njinga Mbandi e o Nganga Nzumba (Zumbi dos Palmares) que na ficção são mãe e filho, mas que na realidade, embora não sejam, viveram na mesma época, e têm a mesma origem, a dos Jagas. Nzambi transportado para o Brasil como escravo é um joguete dos que o cercam, desdenhado e maltratado, como todos os outros escravos, não obstante ser “filho” de uma lendária rainha angolana. Pode-se perguntar se fora do Brasil, noutra condição social, ele teria se tornado, verdadeiramente um grande herói na luta contra a escravidão como na realidade foi e, como de resto, é bem ilustrado e romanceado pelo autor. Na realidade são poucos momentos de ficção nesta obra... Poderíamos dizer que é a realidade romanceada pelo autor. As datas, os acontecimentos, os autores, os personagens, com exceção de Tchinjila, amigo e escravo de Nzambi são reais. No decorrer deste triste episódio, que foi a escravatura, o autor se compraz em descobrir a beleza da natureza humana; liberto de toda doutrina psicanalítica, permaneceu simplesmente poeta, e soube criar a poesia pura com um traço de grandeza.
As amplas perspectivas sobre o verde doce e fresco circundado de rios azuis que brilham em todo esplendor. Há magia e a beleza retratada das florestas africanas e brasileiras com toda sua pujança circunstanciada com toda sua fauna em movimento; o barulho dos gravetos secos caindo das árvores e dos macaquinhos que pulam de haste em haste fazendo algum barulho é de extrema beleza. Encontra-se aí um sentido da vida que não nasce de um gosto puramente literário, um esforço rumo à influência livre, plena e inteira da beleza... Tudo vibra no infinito e na calma do espaço.
A análise dos personagens alcança uma profundidade notável em sua rapidez e leveza, essas figuras humanas se harmonizam com a fuga das nuvens, com o cair das chuvas, com o aparecimento do arco-íris e o seu jogo de luz, do crepúsculo à aurora de um dia novo. Graças à arte tão sutil do escritor, as palavras ganham certa ressonância e a sua música assemelha-se à de um violino de raios de luz e de cores. No entanto, se quisermos considerar esta obra tão somente no plano artístico ou literário, mesmo assim, não deixaria de ser uma obra original e importante para pesquisa mais do que qualquer daquelas obras consideradas “romances históricos” que o precedeu sobre a temática escravidão em Angola e na América Latina.
É verdade que o “romance histórico” na América Latina e em Angola não começou propriamente com João Portelinha. Nem tampouco a temática sobre a escravidão. Aqui, na América Latina, por exemplo, começa com a publicação de O reino deste mundo (1949), do cubano Alejo Carpentier, que assim, como consequência, provocou um ciclo de intensa publicação, tanto de romances históricos tradicionais, nas décadas de 1960 e 70, como também em outros países, não sendo exceção Angola, pátria do autor, cuja publicação de Njinga Mbandi (1979) de Manuel Pacavira, confirma uma produção com muitas características do romance histórico. No entanto, os textos de O reino deste Mundo, de Carpintier, referem-se às populações africanas, sobretudo da Guiné, que foram para América como escravos, mas as populações de Angola sequestradas para este continente não são propriamente os heróis do caribe, onde se encontravam predominantemente as populações da Guiné. As populações de Angola construíram outras histórias de resistência na América Latina como a do Quilombo dos Palmares, no Brasil, liderados por Nganga Nzumba que, aqui, de uma forma inédita e magistral é abordada em estilo de romance por João Portelinha.
A publicação deste gênero de literatura cujas características formais e discursivas diferem em alguns pontos do romance histórico teorizado por Georg Lukács em seu Le roman historique (1965) propõe uma continuação do (sub) gênero que se desenvolve em diferentes partes do mundo e que é denominada como “novo romance histórico” de características estéticas e formais inovadoras, a ironia, a paródia e as categorias da carnavalização (Bakhlin, 1981, p. 104-7), que surgem, aqui, neste livro, com algumas das estruturas desse novo subgênero do romance. Desta maneira, é possível observar o trânsito de patterns literários no interior de um projeto cultural que inclui escritores em Portugal e Angola, considerando as produções de novos romances históricos: a Gloriosa Família: o Tempo dos Flamengos, de Pepetela, o Memorial do Convento, de José Saramago e, agora, O Dia que um Ngola Descobriu Portugal, do escritor e professor João Portelinha d´Angola, que pela sua singularidade, pode também ser comparada a Negras Raízes do premiado escritor afro-americano Alex Haley!
Drª. Helga Féti
Cantora, atriz, apresentadora e crítica de Literatura angolana
sábado, 9 de outubro de 2010
O DIA QUE UM NGOLA DESCOBRIU PORTUGAL
Sinopse do Romance
João Portelinha, que já conhecemos de Crônicas de Risos e Lágrimas, no qual nos apresenta Angola com a familiaridade de quem sofreu as dores do parto da recentíssima liberdade, esclarecendo-nos quanto à influência angolana no constituir do Brasil, assesta agora, com O dia em que um ngola descobriu Portugalsua aguda visão para além-mar, fazendo, literariamente, duas pontes: uma geográfica, reconstituindo o período histórico que uniu firmemente África (particularmente Angola), Brasil e Portugal pelas cadeias da escravatura, e outra, esta uma ponte ideológica, fazendo o mesmo roteiro, em sentido inverso, na intencionalidade de uma vingança histórica.
João Portelinha, agora João Portelinha D’Angola, dá-nos a conhecer em O dia em que um ngola descobriu Portugal, o espírito guerreiro que o anima à incursão de revanche pelo domínio sofrido e, ao mesmo tempo, revela-nos a fineza do literato que, munido do recurso das letras e de acontecimentos históricos, reconstitui idealmente a história de seu próprio povo, o povo de Angola, de modo a vivenciar um novo desfecho.Trata-se de um romance ficcional, ainda que completamente embasado em fatos históricos, palco no qual o Brasil entra como ator coadjuvante, berço que foi de Nganga Nzumba (o nosso brasileiríssimo Ganga Zumba) e continente do território de um povo que ousou levantar-se contra os grilhões da escravatura: Palmares. Apesar de coadjuvante, e palco das demonstrações do que havia de mais desumano e violento no período em pauta, encarna o Brasil o espírito libertário de Nganga Nzumba que, na também libertária pena de João Portelinha D’Angola, transcende as limitações de seu tempo e de sua condição de inimigo do reino para vencer e conquistar a terra mesma dos conquistadores de seu próprio povo.
O dia em que um ngola descobriu Portugal é muito mais que a ficção de um período histórico; é antes e, além disso, um grito de liberdade que ecoa por três continentes e que ainda hoje se faz necessário ser gritar e ser ouvido, pois se foram modificados os modos, os atores e as ferramentas de dominação, a dominação em si continua, já sem a rota específica da dor, como a tínhamos então, mas amplamente difundida na prática aviltante da exploração do ser humano, independentemente de sua condição social, cultura ou região de origem.
Em suma, o que deveria ter morrido com o período da selvageria embasada no preconceito, medra com toda a pujança nos meios que nos parecem mais plenos de humanidade, explorando o homem nos seus vários aspectos: físico, emocional, mental, devocional. O grito de liberdade de Nganga Nzumba deixou, com O dia em que um ngola descobriu Portugal, seu nicho circunscrito no tempo para ganhar a dimensão global em que existimos, comprovando que o tempo passou, as condições de domínio político passaram, mas a dignidade humana continua a carecer de respeito e liberdade. Texto do poeta Casagrande
João Portelinha, que já conhecemos de Crônicas de Risos e Lágrimas, no qual nos apresenta Angola com a familiaridade de quem sofreu as dores do parto da recentíssima liberdade, esclarecendo-nos quanto à influência angolana no constituir do Brasil, assesta agora, com O dia em que um ngola descobriu Portugalsua aguda visão para além-mar, fazendo, literariamente, duas pontes: uma geográfica, reconstituindo o período histórico que uniu firmemente África (particularmente Angola), Brasil e Portugal pelas cadeias da escravatura, e outra, esta uma ponte ideológica, fazendo o mesmo roteiro, em sentido inverso, na intencionalidade de uma vingança histórica.
João Portelinha, agora João Portelinha D’Angola, dá-nos a conhecer em O dia em que um ngola descobriu Portugal, o espírito guerreiro que o anima à incursão de revanche pelo domínio sofrido e, ao mesmo tempo, revela-nos a fineza do literato que, munido do recurso das letras e de acontecimentos históricos, reconstitui idealmente a história de seu próprio povo, o povo de Angola, de modo a vivenciar um novo desfecho.Trata-se de um romance ficcional, ainda que completamente embasado em fatos históricos, palco no qual o Brasil entra como ator coadjuvante, berço que foi de Nganga Nzumba (o nosso brasileiríssimo Ganga Zumba) e continente do território de um povo que ousou levantar-se contra os grilhões da escravatura: Palmares. Apesar de coadjuvante, e palco das demonstrações do que havia de mais desumano e violento no período em pauta, encarna o Brasil o espírito libertário de Nganga Nzumba que, na também libertária pena de João Portelinha D’Angola, transcende as limitações de seu tempo e de sua condição de inimigo do reino para vencer e conquistar a terra mesma dos conquistadores de seu próprio povo.
O dia em que um ngola descobriu Portugal é muito mais que a ficção de um período histórico; é antes e, além disso, um grito de liberdade que ecoa por três continentes e que ainda hoje se faz necessário ser gritar e ser ouvido, pois se foram modificados os modos, os atores e as ferramentas de dominação, a dominação em si continua, já sem a rota específica da dor, como a tínhamos então, mas amplamente difundida na prática aviltante da exploração do ser humano, independentemente de sua condição social, cultura ou região de origem.
Em suma, o que deveria ter morrido com o período da selvageria embasada no preconceito, medra com toda a pujança nos meios que nos parecem mais plenos de humanidade, explorando o homem nos seus vários aspectos: físico, emocional, mental, devocional. O grito de liberdade de Nganga Nzumba deixou, com O dia em que um ngola descobriu Portugal, seu nicho circunscrito no tempo para ganhar a dimensão global em que existimos, comprovando que o tempo passou, as condições de domínio político passaram, mas a dignidade humana continua a carecer de respeito e liberdade. Texto do poeta Casagrande
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
A IGREJA E A DILMA, QUEM TEM RAZÃO? PARA REFLEXÃO...
É bom conversar... Principalmente com gente inteligente! Como estamos em época de eleições geralmente as nossas conversas são sobre os nossos candidatos ao pleito, principalmente sobre o perfil dos presidenciáveis.
Tornou-se público nestes dias a estratégia político – religiosa de uma parcela da Igreja no sentido de “demonização do Partido dos trabalhadores do Brasil” e da sua candidata Dilma. Com efeito, ontem tive oportunidade de conversar sobre o assunto com três amigos, um dos quais é Doutor em Teologia pelo Vaticano. Com exceção do meu, o nome dos meus amigos aqui serão fictícios por não ter tido a oportunidade de lhes comunicar minha intenção de publicar a nossa maravilhosa conversa de ontem.
- Não crês Portelinha, na qualidade de cientista político, que as Igrejas devem participar na vida política do país, embora a laicidade seja uma conquista inegociável do nosso Estado brasileiro? Perguntou-me um dos meus amigos, José.
- Não vejo nenhum problema! Em regimes democráticos como o estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez participativa. Entendo, inclusive, que os ministros de confissão religiosa seja ela qual for, têm o direito de pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos. Sem dúvida, a meu ver, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorrem para o aprimoramento de todas as instituições e produzem um elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou povos) devem ser buscados e cultivados pelos religiosos, inclusive a política! Outra coisa é fomentar boatos com fins escusos! Respondi.
- Olha, eu vejo com muita preocupação a posição de muitos lideres evangélicos e católicos manipularem seus membros no sentido de não votarem na Dilma com base em simples boatos e com discursos de fazer política partidária. É também função da Igreja essa responsabilidade?
- De fato essas Igrejas em vez de converterem os políticos ao Evangelho, eles é que se convertem em políticos profissionais! (rsrsrsrsrs). E o pior disso tudo, continuei, é que alguns deles apresentam-se como detentores de um mandato divino por serem pastores ou padres e passam a imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
- Vocês sabem que muitos pastores, inclusive a própria Igreja católica, pedem para que seus fieis não votem na candidata do PT? Dom Luiz Gonzaga Bergonzi, por exemplo, disse em entrevista ao GI que orientara os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Interroga Daniel.
- E são discursos difamatórios que quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade! Uma das armas prediletas da difamação é sempre a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas! Até já dizem que o Vice da Dilma é satanista e fazem campanha para que seus membros não votem na Dilma porque, segundo eles, ela “defende o aborto” Comentou José.
- Mas se não me engano foi José Serra, então Ministro da Saúde em novembro de 1998, que assinou uma Norma Técnica da sua pasta implantando o atendimento na rede SUS de toda mulher, vítima de violência sexual, interessada em praticar o aborto
- Inclusive, naquela altura, foi feito um manual que descrevia as técnicas a serem utilizadas! Disse José
- Olha, para sermos justos foi até defensável do ponto de vista de saúde pública! Poderei
- E as Igrejas condenaram? Perguntou minha esposa.
- A Norma mereceu uma condenação enfática da 45ª Reunião da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
- Se quiseram – propôs José - eu até tenho a carta da CNBB que consegui na Internet. Podem ler...
“ Excelentíssimo Sr. Dr. José Serra
Ministro da Saúde
Senhor Ministro,
Em nome do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunido em Brasília/DF, de 22 a 25 deste mês, venho manifestar nosso apreço pelas iniciativas em tornar os medicamentos mais acessíveis à população brasileira. Merece destaque o congelamento do preço dos remédios até o fim do ano corrente. Não podemos, porém, deixar de expressar nossa rejeição à assinatura, em 9 de novembro de 1998, da Norma Técnica "Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes", a qual instrui os Hospitais do SUS a praticarem aborto em crianças de até cinco meses de vida, que tenham sido geradas em um estupro. Como pastores da Igreja, entendemos que é nossa missão trabalhar sempre em favor da vida, e que a criança concebida tenha sua vida tão respeitada quanto a vida da mulher violentada. Em defesa da "cultura da vida" e da consciência ética, tão defendida pela Igreja, que qualificou o aborto de "crime abominável", solicitamos a revogação imediata de tal Norma Técnica, ao mesmo tempo que pedimos assistência prioritária às vítimas de violência sexual. Dispomo-nos a fazer o que estiver ao nosso alcance para assistir as mulheres estupradas, sem, porém, jamais atentarmos contra a vida do nascituro.
Pelo Conselho Permanente da CNBB
Dom Raymundo Damasceno Assis
Secretário Geral da CNBB
Brasília, 25 de agosto de 2000.”
- Mas quando Serra se candidatou a Presidente em nenhum momento fizeram uma campanha para não votarem nele por essa razão. Estranho não é? Questionei
- Olha, eu trabalho na Saúde se vocês quiserem eu até vou buscar o Manual que descreve as técnicas a serem utilizadas, cuja apresentação foi assinada pelo então ministro Serra! – Propôs Daniel
-Vai buscar! Pedimos todos
Quando voltou nos mostrou o manual que dizia:
“Até 12 semanas, o médico poderá optar pelo esvaziamento da cavidade uterina, de acordo com dois métodos. O primeiro, a dilatação do colo uterino e a curetagem. O segundo, a aspiração manual, além de um jogo de dilatadores anatômicos, seringas com vácuos. "A técnica consiste em dilatar o colo uterino até que fique compatível com a idade gestacional. Introduz-se a cânula correspondente e se procede à aspiração da cavidade uterina, tomando-se o cuidado de verificar o momento correto do término do procedimento, ocasião esta em que se sente a aspereza das paredes uterinas, a formação de sangue espumoso e o enluvamento da cânula pelo útero, e em que as pacientes sob anestesia para cervical referem cólicas".
I - APRESENTAÇÃO
As mulheres vêm conquistando nas últimas décadas direitos sociais que a história e a cultura reservaram aos homens durante séculos. no entanto, ainda permanecem relações significativamente desiguais entre ambos os sexos, sendo o mais grave deles a violência sexual contra a mulher.
É dever do Estado e da Sociedade civil delinearem estratégias para terminar com esta violência. E, ao setor saúde compete acolher as vítimas, e não virar as costas para elas, buscando minimizar sua dor e evitar outros agravos.
O braço executivo das ações de saúde no Brasil é formado pelos estados e municípios e, é a eles que o Ministério da Saúde oferece subsídios para medidas que assegurem a estas mulheres a harmonia necessária para prosseguirem, com dignidade, suas vidas.
José Serra
Ministro da Saúde”
- Na apresentação da norma "PREVENÇÃO E TRATAMENTO DOS AGRAVOS RESULTANTES DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA MULHERES E ADOLESCENTES", Serra trata o aborto como um direito da mulher. Acho até louvável como política pública... Todos Estados modernos e democráticos defendem essa política louvável! Ponderei.
- Tu defendes o Serra? – Um deles me perguntou.
- Não se trata de defender o candidato Serra ou não. Estou defendendo é o Direito das Mulheres! Respondi.
- Vocês ainda não viram qual é o real problema! – Disse José
E explicou:
- O que me causa espécie é que Serra, agora, engrosse o coro dos que pretendem condenar Dilma Rousseff por uma opinião sobre uma política implementada por ele próprio!
- Dá para entender esse mundo?! Disse um senhor que estava perto do local da nossa discussão.
Mas mudando um pouco de assunto... Propus
- Interessante! Vocês já viram que eles não denunciam a fome, a falta de segurança no país, a pedofilia no meio católico e entre os pastores, como aniquidades!
- É verdade, Portelinha, eles nunca se mobilizaram contra a pedofilia! Ainda pareço ver aquelas imagens terríveis de vídeo amador mostrando um jovem a filmar às escondidas um padre de 82 anos em pleno ato sexual. E depois das denúncias, os repórteres tentaram uma reação do padre que foi filmado e o sacerdote disse apenas que era um assunto de confessionário!
- Isto é aqui no Brasil! - Disse Daniel - Há o caso de um Padre espanhol que tinha mais de 400 horas de gravações de pornografia infantil... Na Alemanha... Na Irlanda onde o seu cardeal primaz, está no centro da polêmica por ter ocultado abusos sexuais cometidos contra menores pelo clero! Em Portugal, o caso mais conhecido de pedofilia a envolver a Igreja remonta a 1993 quando Padre Frederico é condenado pela prática de pedofilia com jovens do sexo masculino. O religioso acaba por fugir para o Brasil onde dá entrevistas no Rio de Janeiro! E Por que eles não se mobilizam para combater tais iniqüidades e dizem que os outros é que são iníquos?
- É verdade, fazem uma política de demonização do PT, e não levam em consideração que tal processo nega o legado histórico do partido dos trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e justiça social. Os que afirmam o nascimento de “um império iniqüidade”, com a possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira. O que é iniqüidade? Não é a pedofilia? A inquisição? O silêncio quando Hitler massacrou milhares de Judeus e Ciganos? Ou é o combate a miséria e a justiça social preconizada pela candidata Dilma? Questionei
João Portelinha, Professor da UFT, Presidente da APL e analista político. joaoportelinhadasilva@hotmail.com
Tornou-se público nestes dias a estratégia político – religiosa de uma parcela da Igreja no sentido de “demonização do Partido dos trabalhadores do Brasil” e da sua candidata Dilma. Com efeito, ontem tive oportunidade de conversar sobre o assunto com três amigos, um dos quais é Doutor em Teologia pelo Vaticano. Com exceção do meu, o nome dos meus amigos aqui serão fictícios por não ter tido a oportunidade de lhes comunicar minha intenção de publicar a nossa maravilhosa conversa de ontem.
- Não crês Portelinha, na qualidade de cientista político, que as Igrejas devem participar na vida política do país, embora a laicidade seja uma conquista inegociável do nosso Estado brasileiro? Perguntou-me um dos meus amigos, José.
- Não vejo nenhum problema! Em regimes democráticos como o estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez participativa. Entendo, inclusive, que os ministros de confissão religiosa seja ela qual for, têm o direito de pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos. Sem dúvida, a meu ver, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorrem para o aprimoramento de todas as instituições e produzem um elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou povos) devem ser buscados e cultivados pelos religiosos, inclusive a política! Outra coisa é fomentar boatos com fins escusos! Respondi.
- Olha, eu vejo com muita preocupação a posição de muitos lideres evangélicos e católicos manipularem seus membros no sentido de não votarem na Dilma com base em simples boatos e com discursos de fazer política partidária. É também função da Igreja essa responsabilidade?
- De fato essas Igrejas em vez de converterem os políticos ao Evangelho, eles é que se convertem em políticos profissionais! (rsrsrsrsrs). E o pior disso tudo, continuei, é que alguns deles apresentam-se como detentores de um mandato divino por serem pastores ou padres e passam a imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
- Vocês sabem que muitos pastores, inclusive a própria Igreja católica, pedem para que seus fieis não votem na candidata do PT? Dom Luiz Gonzaga Bergonzi, por exemplo, disse em entrevista ao GI que orientara os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Interroga Daniel.
- E são discursos difamatórios que quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade! Uma das armas prediletas da difamação é sempre a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas! Até já dizem que o Vice da Dilma é satanista e fazem campanha para que seus membros não votem na Dilma porque, segundo eles, ela “defende o aborto” Comentou José.
- Mas se não me engano foi José Serra, então Ministro da Saúde em novembro de 1998, que assinou uma Norma Técnica da sua pasta implantando o atendimento na rede SUS de toda mulher, vítima de violência sexual, interessada em praticar o aborto
- Inclusive, naquela altura, foi feito um manual que descrevia as técnicas a serem utilizadas! Disse José
- Olha, para sermos justos foi até defensável do ponto de vista de saúde pública! Poderei
- E as Igrejas condenaram? Perguntou minha esposa.
- A Norma mereceu uma condenação enfática da 45ª Reunião da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
- Se quiseram – propôs José - eu até tenho a carta da CNBB que consegui na Internet. Podem ler...
“ Excelentíssimo Sr. Dr. José Serra
Ministro da Saúde
Senhor Ministro,
Em nome do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunido em Brasília/DF, de 22 a 25 deste mês, venho manifestar nosso apreço pelas iniciativas em tornar os medicamentos mais acessíveis à população brasileira. Merece destaque o congelamento do preço dos remédios até o fim do ano corrente. Não podemos, porém, deixar de expressar nossa rejeição à assinatura, em 9 de novembro de 1998, da Norma Técnica "Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Adolescentes", a qual instrui os Hospitais do SUS a praticarem aborto em crianças de até cinco meses de vida, que tenham sido geradas em um estupro. Como pastores da Igreja, entendemos que é nossa missão trabalhar sempre em favor da vida, e que a criança concebida tenha sua vida tão respeitada quanto a vida da mulher violentada. Em defesa da "cultura da vida" e da consciência ética, tão defendida pela Igreja, que qualificou o aborto de "crime abominável", solicitamos a revogação imediata de tal Norma Técnica, ao mesmo tempo que pedimos assistência prioritária às vítimas de violência sexual. Dispomo-nos a fazer o que estiver ao nosso alcance para assistir as mulheres estupradas, sem, porém, jamais atentarmos contra a vida do nascituro.
Pelo Conselho Permanente da CNBB
Dom Raymundo Damasceno Assis
Secretário Geral da CNBB
Brasília, 25 de agosto de 2000.”
- Mas quando Serra se candidatou a Presidente em nenhum momento fizeram uma campanha para não votarem nele por essa razão. Estranho não é? Questionei
- Olha, eu trabalho na Saúde se vocês quiserem eu até vou buscar o Manual que descreve as técnicas a serem utilizadas, cuja apresentação foi assinada pelo então ministro Serra! – Propôs Daniel
-Vai buscar! Pedimos todos
Quando voltou nos mostrou o manual que dizia:
“Até 12 semanas, o médico poderá optar pelo esvaziamento da cavidade uterina, de acordo com dois métodos. O primeiro, a dilatação do colo uterino e a curetagem. O segundo, a aspiração manual, além de um jogo de dilatadores anatômicos, seringas com vácuos. "A técnica consiste em dilatar o colo uterino até que fique compatível com a idade gestacional. Introduz-se a cânula correspondente e se procede à aspiração da cavidade uterina, tomando-se o cuidado de verificar o momento correto do término do procedimento, ocasião esta em que se sente a aspereza das paredes uterinas, a formação de sangue espumoso e o enluvamento da cânula pelo útero, e em que as pacientes sob anestesia para cervical referem cólicas".
I - APRESENTAÇÃO
As mulheres vêm conquistando nas últimas décadas direitos sociais que a história e a cultura reservaram aos homens durante séculos. no entanto, ainda permanecem relações significativamente desiguais entre ambos os sexos, sendo o mais grave deles a violência sexual contra a mulher.
É dever do Estado e da Sociedade civil delinearem estratégias para terminar com esta violência. E, ao setor saúde compete acolher as vítimas, e não virar as costas para elas, buscando minimizar sua dor e evitar outros agravos.
O braço executivo das ações de saúde no Brasil é formado pelos estados e municípios e, é a eles que o Ministério da Saúde oferece subsídios para medidas que assegurem a estas mulheres a harmonia necessária para prosseguirem, com dignidade, suas vidas.
José Serra
Ministro da Saúde”
- Na apresentação da norma "PREVENÇÃO E TRATAMENTO DOS AGRAVOS RESULTANTES DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA MULHERES E ADOLESCENTES", Serra trata o aborto como um direito da mulher. Acho até louvável como política pública... Todos Estados modernos e democráticos defendem essa política louvável! Ponderei.
- Tu defendes o Serra? – Um deles me perguntou.
- Não se trata de defender o candidato Serra ou não. Estou defendendo é o Direito das Mulheres! Respondi.
- Vocês ainda não viram qual é o real problema! – Disse José
E explicou:
- O que me causa espécie é que Serra, agora, engrosse o coro dos que pretendem condenar Dilma Rousseff por uma opinião sobre uma política implementada por ele próprio!
- Dá para entender esse mundo?! Disse um senhor que estava perto do local da nossa discussão.
Mas mudando um pouco de assunto... Propus
- Interessante! Vocês já viram que eles não denunciam a fome, a falta de segurança no país, a pedofilia no meio católico e entre os pastores, como aniquidades!
- É verdade, Portelinha, eles nunca se mobilizaram contra a pedofilia! Ainda pareço ver aquelas imagens terríveis de vídeo amador mostrando um jovem a filmar às escondidas um padre de 82 anos em pleno ato sexual. E depois das denúncias, os repórteres tentaram uma reação do padre que foi filmado e o sacerdote disse apenas que era um assunto de confessionário!
- Isto é aqui no Brasil! - Disse Daniel - Há o caso de um Padre espanhol que tinha mais de 400 horas de gravações de pornografia infantil... Na Alemanha... Na Irlanda onde o seu cardeal primaz, está no centro da polêmica por ter ocultado abusos sexuais cometidos contra menores pelo clero! Em Portugal, o caso mais conhecido de pedofilia a envolver a Igreja remonta a 1993 quando Padre Frederico é condenado pela prática de pedofilia com jovens do sexo masculino. O religioso acaba por fugir para o Brasil onde dá entrevistas no Rio de Janeiro! E Por que eles não se mobilizam para combater tais iniqüidades e dizem que os outros é que são iníquos?
- É verdade, fazem uma política de demonização do PT, e não levam em consideração que tal processo nega o legado histórico do partido dos trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e justiça social. Os que afirmam o nascimento de “um império iniqüidade”, com a possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira. O que é iniqüidade? Não é a pedofilia? A inquisição? O silêncio quando Hitler massacrou milhares de Judeus e Ciganos? Ou é o combate a miséria e a justiça social preconizada pela candidata Dilma? Questionei
João Portelinha, Professor da UFT, Presidente da APL e analista político. joaoportelinhadasilva@hotmail.com
IGREJA E DILMA, QUEM TEM RAZÃO?
É bom conversar... Principalmente com gente inteligente! Como estamos em época de eleições geralmente as nossas conversas são sobre os nossos candidatos ao pleito, principalmente sobre o perfil dos presidenciáveis.
Tornou-se público nestes dias a estratégia político – religiosa de uma parcela da Igreja no sentido de “demonização do Partido dos trabalhadores do Brasil” e da sua candidata Dilma. Com efeito, ontem tive oportunidade de conversar sobre o assunto com três amigos, um dos quais é Doutor em Teologia pelo Vaticano. Com exceção do meu, o nome dos meus amigos aqui serão fictícios por não ter tido a oportunidade de lhes comunicar minha intenção de publicar a nossa maravilhosa conversa de ontem.
- Não crês Portelinha, na qualidade de cientista político, que as Igrejas devem participar na vida política do país, embora a laicidade seja uma conquista inegociável do nosso Estado brasileiro? Perguntou-me um dos meus amigos, José.
- Não vejo nenhum problema! Em regimes democráticos como o estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez participativa. Entendo, inclusive, que os ministros de confissão religiosa seja ela qual for, têm o direito de pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos. Sem dúvida, a meu ver, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorrem para o aprimoramento de todas as instituições e produzem um elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou povos) devem ser buscados e cultivados pelos religiosos, inclusive a política! Outra coisa é fomentar boatos com fins escusos! Respondi.
- Olha, eu vejo com muita preocupação a posição de muitos lideres evangélicos e católicos manipularem seus membros no sentido de não votarem na Dilma com base em simples boatos e com discursos de fazer política partidária. É também função da Igreja essa responsabilidade?
- De fato essas Igrejas em vez de converterem os políticos ao Evangelho, eles é que se convertem em políticos profissionais! (rsrsrsrsrs). E o pior disso tudo, continuei, é que alguns deles apresentam-se como detentores de um mandato divino por serem pastores ou padres e passam a imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
- Vocês sabem que muitos pastores, inclusive a própria Igreja católica, pedem para que seus fieis na votem na candidata do PT? Dom Luiz Gonzaga Bergonzi, por exemplo, disse em entrevista ao GI que orientara os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Interroga Daniel.
- E são discursos difamatórios que quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade! Uma das armas prediletas da difamação é sempre a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas! Até já dizem que o Vice da Dilma é satanista! Comentou José.
- Interessante! Vocês já viram que eles não denunciam a fome, a falta de segurança no país, a pedofilia no meio católico e entre os pastores, como aniquidades! Questionei.
- É verdade, Portelinha, eles nunca se mobilizaram contra a pedofilia! Ainda pareço ver aquelas imagens terríveis de vídeo amador mostrando um jovem a filmar às escondidas um padre de 82 anos em pleno ato sexual. E depois das denúncias, os repórteres tentaram uma reação do padre que foi filmado e o sacerdote disse apenas que era um assunto de confessionário!
- Isto é aqui no Brasil! - Disse Daniel - Há o caso de um Padre espanhol que tinha mais de 400 horas de gravações de pornografia infantil... Na Alemanha... Na Irlanda onde o seu cardeal primaz, está no centro da polêmica por ter ocultado abusos sexuais cometidos contra menores pelo clero! Em Portugal, o caso mais conhecido de pedofilia a envolver a Igreja remonta a 1993 quando Padre Frederico é condenado pela prática de pedofilia com jovens do sexo masculino. O religioso acaba por fugir para o Brasil onde dá entrevistas no Rio de Janeiro! E Por que eles não se mobilizam para combater tais iniqüidades e dizem que os outros é que são iníquos?
- É verdade, fazem uma política de demonização do PT, e não levam em consideração que tal processo nega o legado histórico do partido dos trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e justiça social. Os que afirmam o nascimento de “um império iniqüidade”, com a possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira. O que é iniqüidade? Não é a pedofilia? A inquisição? O silêncio quando Hitler massacrou milhares de Judeus e Ciganos? Ou é o combate a miséria e a justiça social preconizada pela candidata Dilma? Questionei
João Portelinha, Professor da UFT, Presidente da APL e analista político. joaoportelinhadasilva@hotmail.com
Tornou-se público nestes dias a estratégia político – religiosa de uma parcela da Igreja no sentido de “demonização do Partido dos trabalhadores do Brasil” e da sua candidata Dilma. Com efeito, ontem tive oportunidade de conversar sobre o assunto com três amigos, um dos quais é Doutor em Teologia pelo Vaticano. Com exceção do meu, o nome dos meus amigos aqui serão fictícios por não ter tido a oportunidade de lhes comunicar minha intenção de publicar a nossa maravilhosa conversa de ontem.
- Não crês Portelinha, na qualidade de cientista político, que as Igrejas devem participar na vida política do país, embora a laicidade seja uma conquista inegociável do nosso Estado brasileiro? Perguntou-me um dos meus amigos, José.
- Não vejo nenhum problema! Em regimes democráticos como o estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez participativa. Entendo, inclusive, que os ministros de confissão religiosa seja ela qual for, têm o direito de pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos. Sem dúvida, a meu ver, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorrem para o aprimoramento de todas as instituições e produzem um elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou povos) devem ser buscados e cultivados pelos religiosos, inclusive a política! Outra coisa é fomentar boatos com fins escusos! Respondi.
- Olha, eu vejo com muita preocupação a posição de muitos lideres evangélicos e católicos manipularem seus membros no sentido de não votarem na Dilma com base em simples boatos e com discursos de fazer política partidária. É também função da Igreja essa responsabilidade?
- De fato essas Igrejas em vez de converterem os políticos ao Evangelho, eles é que se convertem em políticos profissionais! (rsrsrsrsrs). E o pior disso tudo, continuei, é que alguns deles apresentam-se como detentores de um mandato divino por serem pastores ou padres e passam a imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
- Vocês sabem que muitos pastores, inclusive a própria Igreja católica, pedem para que seus fieis na votem na candidata do PT? Dom Luiz Gonzaga Bergonzi, por exemplo, disse em entrevista ao GI que orientara os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Interroga Daniel.
- E são discursos difamatórios que quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade! Uma das armas prediletas da difamação é sempre a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas! Até já dizem que o Vice da Dilma é satanista! Comentou José.
- Interessante! Vocês já viram que eles não denunciam a fome, a falta de segurança no país, a pedofilia no meio católico e entre os pastores, como aniquidades! Questionei.
- É verdade, Portelinha, eles nunca se mobilizaram contra a pedofilia! Ainda pareço ver aquelas imagens terríveis de vídeo amador mostrando um jovem a filmar às escondidas um padre de 82 anos em pleno ato sexual. E depois das denúncias, os repórteres tentaram uma reação do padre que foi filmado e o sacerdote disse apenas que era um assunto de confessionário!
- Isto é aqui no Brasil! - Disse Daniel - Há o caso de um Padre espanhol que tinha mais de 400 horas de gravações de pornografia infantil... Na Alemanha... Na Irlanda onde o seu cardeal primaz, está no centro da polêmica por ter ocultado abusos sexuais cometidos contra menores pelo clero! Em Portugal, o caso mais conhecido de pedofilia a envolver a Igreja remonta a 1993 quando Padre Frederico é condenado pela prática de pedofilia com jovens do sexo masculino. O religioso acaba por fugir para o Brasil onde dá entrevistas no Rio de Janeiro! E Por que eles não se mobilizam para combater tais iniqüidades e dizem que os outros é que são iníquos?
- É verdade, fazem uma política de demonização do PT, e não levam em consideração que tal processo nega o legado histórico do partido dos trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e justiça social. Os que afirmam o nascimento de “um império iniqüidade”, com a possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira. O que é iniqüidade? Não é a pedofilia? A inquisição? O silêncio quando Hitler massacrou milhares de Judeus e Ciganos? Ou é o combate a miséria e a justiça social preconizada pela candidata Dilma? Questionei
João Portelinha, Professor da UFT, Presidente da APL e analista político. joaoportelinhadasilva@hotmail.com
DILMA E A IGREJA, QUEM TEM RAZÂO?
É bom conversar... Principalmente com gente inteligente! Como estamos em época de eleições geralmente as nossas conversas são sobre os nossos candidatos ao pleito, principalmente sobre o perfil dos presidenciáveis.
Tornou-se público nestes dias a estratégia político – religiosa de uma parcela da Igreja no sentido de “demonização do Partido dos trabalhadores do Brasil” e da sua candidata Dilma. Com efeito, ontem tive oportunidade de conversar sobre o assunto com três amigos, um dos quais é Doutor em Teologia pelo Vaticano. Com exceção do meu, o nome dos meus amigos aqui serão fictícios por não ter tido a oportunidade de lhes comunicar minha intenção de publicar a nossa maravilhosa conversa de ontem.
- Não crês Portelinha, na qualidade de cientista político, que as Igrejas devem participar na vida política do país, embora a laicidade seja uma conquista inegociável do nosso Estado brasileiro? Perguntou-me um dos meus amigos, José.
- Não vejo nenhum problema! Em regimes democráticos como o estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez participativa. Entendo, inclusive, que os ministros de confissão religiosa seja ela qual for, têm o direito de pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos. Sem dúvida, a meu ver, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorrem para o aprimoramento de todas as instituições e produzem um elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou povos) devem ser buscados e cultivados pelos religiosos, inclusive a política! Outra coisa é fomentar boatos com fins escusos! Respondi.
- Olha, eu vejo com muita preocupação a posição de muitos lideres evangélicos e católicos manipularem seus membros no sentido de não votarem na Dilma com base em simples boatos e com discursos de fazer política partidária. É também função da Igreja essa responsabilidade?
- De fato essas Igrejas em vez de converterem os políticos ao Evangelho, eles é que se convertem em políticos profissionais! (rsrsrsrsrs). E o pior disso tudo, continuei, é que alguns deles apresentam-se como detentores de um mandato divino por serem pastores ou padres e passam a imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
- Vocês sabem que muitos pastores, inclusive a própria Igreja católica, pedem para que seus fieis na votem na candidata do PT? Dom Luiz Gonzaga Bergonzi, por exemplo, disse em entrevista ao GI que orientara os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Interroga Daniel.
- E são discursos difamatórios que quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade! Uma das armas prediletas da difamação é sempre a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas! Até já dizem que o Vice da Dilma é satanista! Comentou José.
- Interessante! Vocês já viram que eles não denunciam a fome, a falta de segurança no país, a pedofilia no meio católico e entre os pastores, como aniquidades! Questionei.
- É verdade, Portelinha, eles nunca se mobilizaram contra a pedofilia! Ainda pareço ver aquelas imagens terríveis de vídeo amador mostrando um jovem a filmar às escondidas um padre de 82 anos em pleno ato sexual. E depois das denúncias, os repórteres tentaram uma reação do padre que foi filmado e o sacerdote disse apenas que era um assunto de confessionário!
- Isto é aqui no Brasil! - Disse Daniel - Há o caso de um Padre espanhol que tinha mais de 400 horas de gravações de pornografia infantil... Na Alemanha... Na Irlanda onde o seu cardeal primaz, está no centro da polêmica por ter ocultado abusos sexuais cometidos contra menores pelo clero! Em Portugal, o caso mais conhecido de pedofilia a envolver a Igreja remonta a 1993 quando Padre Frederico é condenado pela prática de pedofilia com jovens do sexo masculino. O religioso acaba por fugir para o Brasil onde dá entrevistas no Rio de Janeiro! E Por que eles não se mobilizam para combater tais iniqüidades e dizem que os outros é que são iníquos?
- É verdade, fazem uma política de demonização do PT, e não levam em consideração que tal processo nega o legado histórico do partido dos trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e justiça social. Os que afirmam o nascimento de “um império iniqüidade”, com a possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira. O que é iniqüidade? Não é a pedofilia? A inquisição? O silêncio quando Hitler massacrou milhares de Judeus e Ciganos? Ou é o combate a miséria e a justiça social preconizada pela candidata Dilma? Questionei
João Portelinha, Professor da UFT, Presidente da APL e analista político. joaoportelinhadasilva@hotmail.com
Tornou-se público nestes dias a estratégia político – religiosa de uma parcela da Igreja no sentido de “demonização do Partido dos trabalhadores do Brasil” e da sua candidata Dilma. Com efeito, ontem tive oportunidade de conversar sobre o assunto com três amigos, um dos quais é Doutor em Teologia pelo Vaticano. Com exceção do meu, o nome dos meus amigos aqui serão fictícios por não ter tido a oportunidade de lhes comunicar minha intenção de publicar a nossa maravilhosa conversa de ontem.
- Não crês Portelinha, na qualidade de cientista político, que as Igrejas devem participar na vida política do país, embora a laicidade seja uma conquista inegociável do nosso Estado brasileiro? Perguntou-me um dos meus amigos, José.
- Não vejo nenhum problema! Em regimes democráticos como o estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez participativa. Entendo, inclusive, que os ministros de confissão religiosa seja ela qual for, têm o direito de pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos. Sem dúvida, a meu ver, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorrem para o aprimoramento de todas as instituições e produzem um elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo (ou povos) devem ser buscados e cultivados pelos religiosos, inclusive a política! Outra coisa é fomentar boatos com fins escusos! Respondi.
- Olha, eu vejo com muita preocupação a posição de muitos lideres evangélicos e católicos manipularem seus membros no sentido de não votarem na Dilma com base em simples boatos e com discursos de fazer política partidária. É também função da Igreja essa responsabilidade?
- De fato essas Igrejas em vez de converterem os políticos ao Evangelho, eles é que se convertem em políticos profissionais! (rsrsrsrsrs). E o pior disso tudo, continuei, é que alguns deles apresentam-se como detentores de um mandato divino por serem pastores ou padres e passam a imagem de que também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação e administração públicas.
- Vocês sabem que muitos pastores, inclusive a própria Igreja católica, pedem para que seus fieis na votem na candidata do PT? Dom Luiz Gonzaga Bergonzi, por exemplo, disse em entrevista ao GI que orientara os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Interroga Daniel.
- E são discursos difamatórios que quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade! Uma das armas prediletas da difamação é sempre a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas! Até já dizem que o Vice da Dilma é satanista! Comentou José.
- Interessante! Vocês já viram que eles não denunciam a fome, a falta de segurança no país, a pedofilia no meio católico e entre os pastores, como aniquidades! Questionei.
- É verdade, Portelinha, eles nunca se mobilizaram contra a pedofilia! Ainda pareço ver aquelas imagens terríveis de vídeo amador mostrando um jovem a filmar às escondidas um padre de 82 anos em pleno ato sexual. E depois das denúncias, os repórteres tentaram uma reação do padre que foi filmado e o sacerdote disse apenas que era um assunto de confessionário!
- Isto é aqui no Brasil! - Disse Daniel - Há o caso de um Padre espanhol que tinha mais de 400 horas de gravações de pornografia infantil... Na Alemanha... Na Irlanda onde o seu cardeal primaz, está no centro da polêmica por ter ocultado abusos sexuais cometidos contra menores pelo clero! Em Portugal, o caso mais conhecido de pedofilia a envolver a Igreja remonta a 1993 quando Padre Frederico é condenado pela prática de pedofilia com jovens do sexo masculino. O religioso acaba por fugir para o Brasil onde dá entrevistas no Rio de Janeiro! E Por que eles não se mobilizam para combater tais iniqüidades e dizem que os outros é que são iníquos?
- É verdade, fazem uma política de demonização do PT, e não levam em consideração que tal processo nega o legado histórico do partido dos trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e justiça social. Os que afirmam o nascimento de “um império iniqüidade”, com a possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira. O que é iniqüidade? Não é a pedofilia? A inquisição? O silêncio quando Hitler massacrou milhares de Judeus e Ciganos? Ou é o combate a miséria e a justiça social preconizada pela candidata Dilma? Questionei
João Portelinha, Professor da UFT, Presidente da APL e analista político. joaoportelinhadasilva@hotmail.com
terça-feira, 28 de setembro de 2010
KIMPA VITA, A GUERREIRA ESQUECIDA (1682-1706)
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Entre as guerreias gloriosas, de que a humanidade guardará a eterna e agradecida memória, avulta Kimpa Vita*, Dona Biatriz do Congo, sacedortiza popular no reino do Congo, uma precursora das figuras proféticas das igrejas independentes e a criadora de um movimento que utilizava os símbolos cristãos, mas revitalizou as raízes culturais tradicionais do Kongo. Não usou espada, nem armas, não derramou uma gota de sangue humano, sequer. No entanto, encetou muitas batalhas na segunda metade do século XVII contra a desintegração cultural e um desarranjo político no Kongo (território que hoje faz parte dos atuais (Angola, Zaire e Kongo). As forças do reino do Ndongo haviam vencido o Kongo...
No final de seiscentos, o Kongo possuía três reis, sendo D. Pedro IV o mais poderoso deles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um projeto de reunificação congolês. Dentro desse vácuo cultural e político, diversos profetas messiânicos surgiram para proclamar suas visões sócio-religiosas. A mais importante entre eles foi Kimpa Vita, uma jovem moça que acreditava estar possuída pelo espírito de Santo António de Pádua, um santo católico popular e realizador de milagres. Na realidade a cristandade de Kimpa Vita já havia caído no sincretismo, uma mistura do cristianismo com as religiões tradicionais africanas...
Em Mbanza Kongo, o primeiro galo cantara, quando o manicongo, Dom Pedro IV, se levanta e convoca os mais-velhos para uma reunião importante cuja pauta principal é debruçarem-se sobre a situação caótica que vive o reino...
- Para além de sermos agora vassalos do reino do Ndongo, meus caros amigos, ainda temos um grande problema - o começo das secas! Benéficas as calamidades públicas que assolam, circunscritas, a nossa terra... Quando o sol - apontando um dedo em sua direção -, que deve reanimar a natureza mata as plantas e os viventes; quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas de cobre candente que abrasam os caminhos e os campos; e a fome e a morte levantam-se das plantações que torram, das fontes sem água como órbitas vazadas, do fumo que ondula em espirais fantásticas das matas que se incendeiam, o nosso povo e os seus sarcedotes devem refugiavam-se aos nossos antepassados, com o fim de obter deles intervenção no sentido de resolvermos os problemas que assolam o nosso reino! – Falou manikongo aos seus súditos.
- E a Cristo e a santo António também, Majestade! – Disse Vita, uma jovem aristocrata, nascida de família nobre congolesa na década de 1680, batizada como Dona Beatriz, mulher que fora sacerdotisa do culto de Marinda (nganga marinda), embora educada no catolicismo. Kimpa Vita contava entre 18 e 20 anos quando, cerca de 1702-1703, acometida de forte doença, disse ter falecido e depois ressuscitado como Santo António. E seria como Santo António que ela pregava às multidões do reino – daí o movimento ter ficado conhecido como antonianismo – seguindo o rasto de outras várias profetisas que lhe precederam na mesma tarefa, como a profetiza Matuta, em meio à crise que assolava o reino.
DOM PEDRO: Vita existe uma união indissolúvel entre nós, os nossos antepassados e as gerações futuras! Este traço de união é que põe em movimento o ritmo dos tempos e das estações do nosso reino e do universo; ela faz a chuva; implora a lua e o sol. Ela possui o raio, o vento, a trovoada...
E continuou...
- Para nós, a religião católica trazida pelos maniputo não se mostrou eficaz contra os infortúnios que assolavam o nosso reino. Não estão vendo? Além disso, os nossos nobres resistem em aceitar a monogamia imposta pelos padres capuchinhos!
Na realidade é um dos temas mais polêmicos na aceitação da nova religião, uma vez que a extensão da rede de solidariedades tecida pelos casamentos era e é peça fundamental nas relações de poder tradicionais...
KIMPA VITA: Mas Majestade agora não somos todos católicos? Fomos batizados na religião do maniputo não devemos apenas fazer apelo aos nossos antepassados, a Cristo e a Santo António também! E finalmente, não vos posso dizer todas as coisas que podeis cometer em pecado; porque há vários modos e meios, tantos que não posso enumerar, mas uma coisa posso dizer-vos se não tomardes cuidado com vós mesmo e vosso pensamento, vossas palavras, vossas obras e não observardes os mandamentos de Cristo nem continuardes tendo fé, certamente perecerás!
DOM PEDRO: Mas Vita o Deus do maniputo não fala conosco ao contrário dos nossos antepassados que são onipresentes?
O culto aos antepassados constituía como que a síntese da vida religiosa dos congoleses.
- Manicongo, não atendendo nós nas coisas que se vêem e se ouvem, mas sim nas que não se vêem e não ouvem teremos a misericórdia de Deus e a ressurreição; porque as que se vêem e se ouvem são temporais, enquanto as que não se vêm e não se ouvem são eternas! – Retorquiu Kimpa Vita a jovem mais bela congolense.
DOM PEDRO: Não entendi muito do que falastes... E a ressurreição?
KIMPA VITA: Tu, Manicongo, melhor do que ninguém sabes que existe! Eu mesma com aos 18 anos acometida de forte doença morri e depois de ter falecido ressuscitei!
DOM PEDRO: Porque dizes ter falecido e não falecida? Tu não és uma mulher?
KIMPA VITA: Porque ressuscitei como Santo António, Majestade! E é como Santo António que eu vos falo e prego às multidões do nosso reino!
DOM PEDRO: Mas eis que tomarei estas tuas palavras que contêm profecias e revelações e pô-las-ei eternamente em minha memória porque me são preciosas; e sei que serão preciosas também para o meu povo!
Embora ele não concordasse em tudo com D. Vita, tinha muito respeito pela sua autoridade. Foi ela quem o proclamou Rei do Congo em troca da sua adesão ao antonianismo. Assegurou-se ainda, por meio de vários acordos, da aliança de famílias nobres adversárias de D. Pedro, a exemplo dos grupos de Kimpanzu, especialmente da família Nóbrega, enraizada no sul da província de Nsoyo. Embora a sua pregação possuísse forte conotação política. Pois, preconizava o retorno da capital a São Salvador e a reunificação do reino, chegando mesmo a envolver-se nas lutas facciosas da época. No entanto, as alianças estabelecidas por Kimpa Vita, metamorfoseada em Santo António, não eram, porém resultado de mero cálculo político. Sua teoria ancoravam-se numa cosmologia complexa e peculiar; uma modalidade remodelada e completamente africanizada do cristianismo. Com efeito, para a profetiza conguense existia uma unidade significativamente organizada, de modo que Cristo, apesar de ser totalmente “OUTRO” não aparecesse como alguém “FORA” do contexto cultural a conhecer apenas através dos seus atributos, mas na totalidade de ser e da vida. Certamente encontramos aqui a ideia de ligame entre o homem e Zambi, o Cristo. Para ela, este ligame alarga-se também aos antepassados que estão em contato mais direito com o homem...
Dali a dez dias, Os Padres capuchinhos voltariam ao reino. Vita entregava-se com frenesi àquele amor a Santo Antonio, a virgem Maria e a Cristo... Apesar das ameaças dos padres católicos que viam nela uma forte concorrente, Vita saia furtivamente todas as noites, para pregar o seu Movimento e só voltando de madrugada... Depois começou a pregar na cidade congolesa de São Salvador, a qual declarou ser desejo de Deus que fosse novamente tornada capital. Seu apelo pela unidade obteve um grande apoio entre os camponeses, que migraram em massa para a cidade, identificada por Kimpa como a cidade bíblica Belém.
KIMPA VITA: Meus queridos irmãos Cristo quer que esta linda cidade se torne novamente capital do nosso reino! Ninguém pode tirar este desejo de dele! A nossa cidade é a verdadeira Belém... É aqui que nasceu Jesus. Acreditem, todas sextas – feiras eu almoço com Ele, desde aquele dia que eu morri e ressuscitei como santo António! A mãe de Jesus, Virgem Maria é preta! Ouviram? Não é branca como os padres dizem ser! Ela foi filha de uma escrava aqui mesmo em Belém, aqui em São Salvador... Virgem Maria foi criada pelo Marquês de Zimba Npanghi! Ouviram? São Francisco também é daqui, pertenceu ao clã do marquês de Vunda! Vocês querem ou não querem que a capital volte para cá?
- Queremos! Queremos! Queremos! - Grita a multidão
A população pediu para acompanhá-la. Prometeram obedecê-la e foram aceitos... Seu apelo pela unidade obteve um grande apoio entre os camponeses, que migraram em massa para a cidade, identificada por Kimpa como a cidade bíblica Belém. Ela disse a seus seguidores que Jesus, Maria e outros santos cristãos haviam sido realmente congoleses. Vita dava as suas roupas aos indigentes, que encontrava à beira dos caminhos. Apenas ficou com a tanga e uma manta parda. Como quase não dormia, seu rosto moreno tinha um tom azulado, os olhos cansados estavam cercados por profundas olheiras com jejuns constantes e prolongados; ela andava por toda a parte com o rosto completamente descoberto, daí por diante, limitava-se a fazer uma única refeição por dia,... No entanto, seu olhar tornava-se triste, sempre que via os mercadores de escravos, ou via seus familiares enlutados que choravam a sua partida. Embora se considerasse católica apostólica romana! Ficava irada quando, ao atravessar uma aldeia, topasse com alguns dos seus desafetos - geralmente padres capuchinhos - falando mal de si! Para estes, ela era simplesmente uma falsa profetiza! Uma grande pecadora! Por isso, tempos depois foi capturada...
Padre: Então Dona Biatriz Kimpa, a senhora e o general, súdito do rei Pedro IV, estão conspirando contra o manicongo?
As relações de amizade entre Dom Pedro IV e Vita eram tão extraordinárias e evidentes que ninguém imaginaria que tempos depois ele, Dom Pedro, facilitaria a sua captura
KIMPA VITA: Bem, o senhor padre é congolês?
PADRE: Não! Por quê?
KIMPA VITA: Mesmo que assim fosse, os senhores são estrangeiros no meu reino. Não é legítimo julgarem-me por desobediência ao meu próprio soberano! Creio ser um assunto domestico Senhor!
Havia um crucifixo na parede do convento... Mas nada disso agora era digno de ser olhado. Afinal tudo era mentira; tudo naquela sala era um fedor; tudo recentia a falsidade, tudo criava a ilusão de significado, de felicidade, de religião, misericórdia, perdão, beleza, e, todavia, não passava de putrefação oculta... Amargo era o sabor do mundo dos padres... A vida era um tormento com aqueles que diziam apregoar a VERDADE DIVINA!
PADRE: Você viu aquela cruz, lá na parede? É bem branco.
KIMPA VITA: Eu não gosto de cruzes! Foi nela que Deus foi crucificado. Por exemplo, uma faca que mata alguém que nós amamos nunca é guardada com carinho!
PADRE: Você vê nele algum negro?
KIMPA VITA: Isso é só uma imagem feita pelos brancos, é claro. Se fossemos nós a fazê-la, seria preta. Dessa nossa madeira escura, dura como ferro. Mas também eu não gosto da cruz porque foi nela que Cristo foi crucificado como já disse... É uma má recordação!
PADRE: Então a senhora confirma o que anda dizendo por aí que Deus é negro?
KIMPA VITA: Deus de certeza que é negro. E mesmo Cristo não nasceu em Belém, mas aqui em Mbanza Congo... E foi batizado no Nsundi, não na Nazaré. E a mãe dele, Nossa Senhora, nasceu de uma escrava do rei Nzinga Mpangu. E foi também aqui que Deus amassou o barro para criar o homem com as suas próprias mãos...
Vita opõe-se ao Cristo “prisioneiro” de uma Igreja que tenderia a monopolizá-Lo, um Cristo que ultrapassa e transcende os quadros institucionais, todas as categorias religiosas e culturais unicamente familiares aos cristãos do Ocidente. Cristo é Aquele que em toda a parte precede o missionário (branco ou negro) e que está presente ma cultura de cada povo e de cada nação!
Padre: Você diz que os brancos têm origem numa pedra bruta chamada ‘fuma’ e que vocês, os negros, nasceram de duas árvores, uma negra e outra vermelha, a ‘nsanda’ e a ‘nkula’, que têm as raízes ligadas aos espíritos da terra, os ‘Nkisi-Nsi’. É isso? Ouvi bem?
Kimpa Vita: Ouviu! Filhos não são iguais aos pais?
Padre: Não entendeu a pergunta? Não foi isso que eu perguntei! Responda a pergunta, por favor!
Kimpa Vita: Deus sive natura! Deus é a natureza! Se Deus é a natureza porque nós não somos também iguais ao pai, nosso criador?
PADRE: Você foi concebida pelo seu “anjo da guarda” - Santo António? Você é virgem? Como pode ter sido concebida?
KIMPA VITA: O senhor está falando de virgem Maria ou de mim?
PADRE: De você!
SIMPA VITA: Se o senhor padre acredita que nossa senhora tenha sido concebida por Deus sendo virgem como não pode acreditar que eu tenha sido concebida, mesmo na condição de não virgem, por Santo António?
Padre: Isto é uma blasfêmia! Você não é Virgem Maria e Santo António por mais que seja santo não é Deus! Que confusão meu Deus! Como se não bastasse ainda diz que também é Santo António!
E continuou...
Padre: Se você diz ser Santo António como pode amamentar?
- Kimpa Vita: Se o senhor padre acredita que Deus é três: pai, filho e espírito santo... Como não acredita que eu possa ser dois: uma mulher e um homem?
Padre: Olha não me confunda! Você também é acusada de ter amamentado o seu filho!
Kimpa Vita: Isso é pecado? Que eu saiba padre, não constitui pecado nenhum amamentar uma criança! Nem nossa nem dos outros!
Padre: Mas a senhora sendo Santo António não pode amamentar... Se diz ser Santo António é homem, e os homens não amamentam. Então a senhora é um falso Santo António!
-Kimpa Vita: Na nossa cultura, padre, os santos não têm sexo!
Padre: O que é isso nossa cultura? Quer dizer que para si as Igrejas têm que ter tradições próprias? Que blasfêmia!
Kimpa Vita: Os Apóstolos sempre fundaram verdadeiras Igrejas com tradições próprias e nem por isso deixaram de ser unidas!
Padre: Como é possível estarem unidas com tradições próprias? Que incoerência
KIMPA VITA: Ninguém padre pode negar que continuando unidas entre si as Igrejas de Jerusalém, de Antioquia, de Corinto, de Éfeso, de Roma... Tivessem tido as suas tradições, que lhe vinham inspiradas pelo mesmo Espírito Santo a partir justamente das respectivas culturas...
-!!!_
PADRE: Dê exemplos!
KIMPA VITA: Pedro teria seguido para Roma via Antioquia e Tiago teria ficado em Jerusalém; João ver-se-ia estabelecido em Éfeso; Paulo foi o Apóstolo que fundou mais Igrejas; O Evangelista Marcos, discípulo de Pedro e Paulo, foi o fundador da Igreja em África etc. Todas elas, porém, com suas tradições construídas a partir dos costumes, da sabedoria e da cultura, da arte e das ciências dos respectivos povos!
...!!!...
Padre: Como você pode se considerar sacerdotisa... Santa... Sendo..
KIMPA VITA: Sendo mulher ou negra?
Padre: Não era bem isso... Que eu queria...
KIMPA VITA: Pois, Senhor Padre, desde o século III ao século IV a vida cristã nas regiões setentrionais de África foi intensíssima e esteve na vanguarda, tanto no estudo teológico como na expressão literária. Saltam-nos à memória os nomes dos grandes Doutores e escritores, como Orígenes, Sto. Atanásio e Sto. Cirilo, luminares da Escola de Alexandria; e, na outra extremidade mediterrânica de África, Tertuliano, S. Cipriano, e, sobretudo Sto. Agostinho, um dos espíritos mais brilhantes do cristianismo. E, entre outros tantos, não posso deixar de mencionar S. frumêncio, chamado Abba Salama, que, tendo sido sagrado bispo por Sto. Atanásio, foi o apostolo da Etiópia.
E Continuou:
... Estes exemplos luminosos e figuras dos santos Papas africanos Vitor I, Melquíades e Gelásio I, pertencem ao patrimônio comum da Igreja; e os escritos dos autores cristãos de África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento da história da salvação à luz das palavras de Deus, que não é branco e não tem sexo, nem nacionalidade! Portanto, como pode ver, eu não sou uma exceção... Se não pode haver sacerdotes e profetas negros como pode haver cristãos negros, Padre? - Retorquiu filosoficamente a oradora mais célebre do reino do Congo com verdadeiro primor de eloqüência
...!!!...
O padre sabia que ela a tinha razão e por falta de argumentos o padre furibundo, sentenciou:
- Bem senhores, ouviram com vossos próprios ouvidos que ela amamenta o seu bebê. Sendo assim está claro que é um “falso Santo António”. Assim decido que tanto ela como o seu rebento, filho do diabo, bem como os seus seguidores mais próximos sejam queimados por heresia.
Kimpa Vita despertou obviamente a ira dos missionários capuchinhos e das facções nobres adversárias do antonianismo e postulantes do poder real. O próprio D. Pedro IV, de início cauteloso e hesitante em reprimir o movimento, terminou por ceder às pressões dos capuchinhos italianos, ordenando a prisão da profetisa e de São João, "o anjo da guarda" de Kimpa Vita que os frades diziam ser seu amante. O estopim ou pretexto que levou à prisão de Kimpa Vita teria sido a acusação de que tinha um filho recém-nascido, cujo choro teria sido ouvido enquanto ela o amamentava em segredo, do que resultara o seu desmascaramento como "falso Santo António”. Kimpa Vita foi presa e condenada a morrer na fogueira como herege.
A tentativa da catequese missionária em convencê-la de “seus erros de apóstata” não surtiu efeito... Kimpa Vita embora condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo... Morreu santa... Morreu como “santo António do Kongo”... Como Santo António da África... Santo António do universo...
Em completo silêncio... Kimpa Vita mantinha-se de pé, amarrada ao um tronco com seu bebê ao colo... Kimpa Vita cristianizada, batizada com o nome de Dona Biatriz, agora volta os olhos para os céus, para o Deus dos brancos, o Deus dos invasores, e pergunta a esse Deus em profunda prece para que serve a água lustral da religião cristã “derramada sobre os civilizados”, já que eles não têm piedade da raça negra, da infeliz e triste raça africana. Por que não escravizam os homens brancos também? Não são, os negros e os brancos, todos os seres humanos e com o mesmo direito à vida, à liberdade? Por que os negros não podem ser santos? Por que Deus não pode ser africano? Virgem Maria? Santo António... Que diferença há entre os pássaros de todas as cores? E os animais e as florestas, as feras e as águas?
Agora a lenha já está acesa... Torturada pela dor, consumida pela sede... Seus lábios carnudos, ávidos de água, mesmo assim sorriem, em constante meditação... Mantém-se ainda em pé, amarrada a um tronco, até já não sentir nem dor nem sede, as olheiras tornavam-se cada vez mais profundas. Seu olhar tornava-se glacial, sempre que via algum membro da família real presenciando sua morte... Desdenhosamente crispava-se-lhe a boca, cada vez que, ao virar cabeça, topava com algum padre! A carne some-lhe das pernas, dos braços e das faces... Os dedos queimados e ressequidos tornavam-se nodosos, as olheiras tornavam-se cada vez mais profundas... Os olhos proeminentes... Começa a chuviscar... Com a água a gotejar-lhe os cabelos (mais não o suficiente para apagar o fogo...) por sobre as espáduas e bebê que está em seu colo, que começa a ser consumido pelo fogo... Ele, já desfalecido ainda tem um resquício de vida... Ainda se contorce... De dor... Chora muito... Seus bracinhos estão pegando fogo... Os quadris e as coxas de sua mãe já foram carbonizados... Daqui por uns minutos tudo se transformará em cinza... Em pó... A multidão chora sua partida...
A sentença foi executada pelos padres capuchinhos, em Mbanza Kongo, numa manhã, de um dia qualquer de 1708...
In “As mulheres que amo na História & as histórias das mulheres que amo” de João Portelinha -2010
Entre as guerreias gloriosas, de que a humanidade guardará a eterna e agradecida memória, avulta Kimpa Vita*, Dona Biatriz do Congo, sacedortiza popular no reino do Congo, uma precursora das figuras proféticas das igrejas independentes e a criadora de um movimento que utilizava os símbolos cristãos, mas revitalizou as raízes culturais tradicionais do Kongo. Não usou espada, nem armas, não derramou uma gota de sangue humano, sequer. No entanto, encetou muitas batalhas na segunda metade do século XVII contra a desintegração cultural e um desarranjo político no Kongo (território que hoje faz parte dos atuais (Angola, Zaire e Kongo). As forças do reino do Ndongo haviam vencido o Kongo...
No final de seiscentos, o Kongo possuía três reis, sendo D. Pedro IV o mais poderoso deles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um projeto de reunificação congolês. Dentro desse vácuo cultural e político, diversos profetas messiânicos surgiram para proclamar suas visões sócio-religiosas. A mais importante entre eles foi Kimpa Vita, uma jovem moça que acreditava estar possuída pelo espírito de Santo António de Pádua, um santo católico popular e realizador de milagres. Na realidade a cristandade de Kimpa Vita já havia caído no sincretismo, uma mistura do cristianismo com as religiões tradicionais africanas...
Em Mbanza Kongo, o primeiro galo cantara, quando o manicongo, Dom Pedro IV, se levanta e convoca os mais-velhos para uma reunião importante cuja pauta principal é debruçarem-se sobre a situação caótica que vive o reino...
- Para além de sermos agora vassalos do reino do Ndongo, meus caros amigos, ainda temos um grande problema - o começo das secas! Benéficas as calamidades públicas que assolam, circunscritas, a nossa terra... Quando o sol - apontando um dedo em sua direção -, que deve reanimar a natureza mata as plantas e os viventes; quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas de cobre candente que abrasam os caminhos e os campos; e a fome e a morte levantam-se das plantações que torram, das fontes sem água como órbitas vazadas, do fumo que ondula em espirais fantásticas das matas que se incendeiam, o nosso povo e os seus sarcedotes devem refugiavam-se aos nossos antepassados, com o fim de obter deles intervenção no sentido de resolvermos os problemas que assolam o nosso reino! – Falou manikongo aos seus súditos.
- E a Cristo e a santo António também, Majestade! – Disse Vita, uma jovem aristocrata, nascida de família nobre congolesa na década de 1680, batizada como Dona Beatriz, mulher que fora sacerdotisa do culto de Marinda (nganga marinda), embora educada no catolicismo. Kimpa Vita contava entre 18 e 20 anos quando, cerca de 1702-1703, acometida de forte doença, disse ter falecido e depois ressuscitado como Santo António. E seria como Santo António que ela pregava às multidões do reino – daí o movimento ter ficado conhecido como antonianismo – seguindo o rasto de outras várias profetisas que lhe precederam na mesma tarefa, como a profetiza Matuta, em meio à crise que assolava o reino.
DOM PEDRO: Vita existe uma união indissolúvel entre nós, os nossos antepassados e as gerações futuras! Este traço de união é que põe em movimento o ritmo dos tempos e das estações do nosso reino e do universo; ela faz a chuva; implora a lua e o sol. Ela possui o raio, o vento, a trovoada...
E continuou...
- Para nós, a religião católica trazida pelos maniputo não se mostrou eficaz contra os infortúnios que assolavam o nosso reino. Não estão vendo? Além disso, os nossos nobres resistem em aceitar a monogamia imposta pelos padres capuchinhos!
Na realidade é um dos temas mais polêmicos na aceitação da nova religião, uma vez que a extensão da rede de solidariedades tecida pelos casamentos era e é peça fundamental nas relações de poder tradicionais...
KIMPA VITA: Mas Majestade agora não somos todos católicos? Fomos batizados na religião do maniputo não devemos apenas fazer apelo aos nossos antepassados, a Cristo e a Santo António também! E finalmente, não vos posso dizer todas as coisas que podeis cometer em pecado; porque há vários modos e meios, tantos que não posso enumerar, mas uma coisa posso dizer-vos se não tomardes cuidado com vós mesmo e vosso pensamento, vossas palavras, vossas obras e não observardes os mandamentos de Cristo nem continuardes tendo fé, certamente perecerás!
DOM PEDRO: Mas Vita o Deus do maniputo não fala conosco ao contrário dos nossos antepassados que são onipresentes?
O culto aos antepassados constituía como que a síntese da vida religiosa dos congoleses.
- Manicongo, não atendendo nós nas coisas que se vêem e se ouvem, mas sim nas que não se vêem e não ouvem teremos a misericórdia de Deus e a ressurreição; porque as que se vêem e se ouvem são temporais, enquanto as que não se vêm e não se ouvem são eternas! – Retorquiu Kimpa Vita a jovem mais bela congolense.
DOM PEDRO: Não entendi muito do que falastes... E a ressurreição?
KIMPA VITA: Tu, Manicongo, melhor do que ninguém sabes que existe! Eu mesma com aos 18 anos acometida de forte doença morri e depois de ter falecido ressuscitei!
DOM PEDRO: Porque dizes ter falecido e não falecida? Tu não és uma mulher?
KIMPA VITA: Porque ressuscitei como Santo António, Majestade! E é como Santo António que eu vos falo e prego às multidões do nosso reino!
DOM PEDRO: Mas eis que tomarei estas tuas palavras que contêm profecias e revelações e pô-las-ei eternamente em minha memória porque me são preciosas; e sei que serão preciosas também para o meu povo!
Embora ele não concordasse em tudo com D. Vita, tinha muito respeito pela sua autoridade. Foi ela quem o proclamou Rei do Congo em troca da sua adesão ao antonianismo. Assegurou-se ainda, por meio de vários acordos, da aliança de famílias nobres adversárias de D. Pedro, a exemplo dos grupos de Kimpanzu, especialmente da família Nóbrega, enraizada no sul da província de Nsoyo. Embora a sua pregação possuísse forte conotação política. Pois, preconizava o retorno da capital a São Salvador e a reunificação do reino, chegando mesmo a envolver-se nas lutas facciosas da época. No entanto, as alianças estabelecidas por Kimpa Vita, metamorfoseada em Santo António, não eram, porém resultado de mero cálculo político. Sua teoria ancoravam-se numa cosmologia complexa e peculiar; uma modalidade remodelada e completamente africanizada do cristianismo. Com efeito, para a profetiza conguense existia uma unidade significativamente organizada, de modo que Cristo, apesar de ser totalmente “OUTRO” não aparecesse como alguém “FORA” do contexto cultural a conhecer apenas através dos seus atributos, mas na totalidade de ser e da vida. Certamente encontramos aqui a ideia de ligame entre o homem e Zambi, o Cristo. Para ela, este ligame alarga-se também aos antepassados que estão em contato mais direito com o homem...
Dali a dez dias, Os Padres capuchinhos voltariam ao reino. Vita entregava-se com frenesi àquele amor a Santo Antonio, a virgem Maria e a Cristo... Apesar das ameaças dos padres católicos que viam nela uma forte concorrente, Vita saia furtivamente todas as noites, para pregar o seu Movimento e só voltando de madrugada... Depois começou a pregar na cidade congolesa de São Salvador, a qual declarou ser desejo de Deus que fosse novamente tornada capital. Seu apelo pela unidade obteve um grande apoio entre os camponeses, que migraram em massa para a cidade, identificada por Kimpa como a cidade bíblica Belém.
KIMPA VITA: Meus queridos irmãos Cristo quer que esta linda cidade se torne novamente capital do nosso reino! Ninguém pode tirar este desejo de dele! A nossa cidade é a verdadeira Belém... É aqui que nasceu Jesus. Acreditem, todas sextas – feiras eu almoço com Ele, desde aquele dia que eu morri e ressuscitei como santo António! A mãe de Jesus, Virgem Maria é preta! Ouviram? Não é branca como os padres dizem ser! Ela foi filha de uma escrava aqui mesmo em Belém, aqui em São Salvador... Virgem Maria foi criada pelo Marquês de Zimba Npanghi! Ouviram? São Francisco também é daqui, pertenceu ao clã do marquês de Vunda! Vocês querem ou não querem que a capital volte para cá?
- Queremos! Queremos! Queremos! - Grita a multidão
A população pediu para acompanhá-la. Prometeram obedecê-la e foram aceitos... Seu apelo pela unidade obteve um grande apoio entre os camponeses, que migraram em massa para a cidade, identificada por Kimpa como a cidade bíblica Belém. Ela disse a seus seguidores que Jesus, Maria e outros santos cristãos haviam sido realmente congoleses. Vita dava as suas roupas aos indigentes, que encontrava à beira dos caminhos. Apenas ficou com a tanga e uma manta parda. Como quase não dormia, seu rosto moreno tinha um tom azulado, os olhos cansados estavam cercados por profundas olheiras com jejuns constantes e prolongados; ela andava por toda a parte com o rosto completamente descoberto, daí por diante, limitava-se a fazer uma única refeição por dia,... No entanto, seu olhar tornava-se triste, sempre que via os mercadores de escravos, ou via seus familiares enlutados que choravam a sua partida. Embora se considerasse católica apostólica romana! Ficava irada quando, ao atravessar uma aldeia, topasse com alguns dos seus desafetos - geralmente padres capuchinhos - falando mal de si! Para estes, ela era simplesmente uma falsa profetiza! Uma grande pecadora! Por isso, tempos depois foi capturada...
Padre: Então Dona Biatriz Kimpa, a senhora e o general, súdito do rei Pedro IV, estão conspirando contra o manicongo?
As relações de amizade entre Dom Pedro IV e Vita eram tão extraordinárias e evidentes que ninguém imaginaria que tempos depois ele, Dom Pedro, facilitaria a sua captura
KIMPA VITA: Bem, o senhor padre é congolês?
PADRE: Não! Por quê?
KIMPA VITA: Mesmo que assim fosse, os senhores são estrangeiros no meu reino. Não é legítimo julgarem-me por desobediência ao meu próprio soberano! Creio ser um assunto domestico Senhor!
Havia um crucifixo na parede do convento... Mas nada disso agora era digno de ser olhado. Afinal tudo era mentira; tudo naquela sala era um fedor; tudo recentia a falsidade, tudo criava a ilusão de significado, de felicidade, de religião, misericórdia, perdão, beleza, e, todavia, não passava de putrefação oculta... Amargo era o sabor do mundo dos padres... A vida era um tormento com aqueles que diziam apregoar a VERDADE DIVINA!
PADRE: Você viu aquela cruz, lá na parede? É bem branco.
KIMPA VITA: Eu não gosto de cruzes! Foi nela que Deus foi crucificado. Por exemplo, uma faca que mata alguém que nós amamos nunca é guardada com carinho!
PADRE: Você vê nele algum negro?
KIMPA VITA: Isso é só uma imagem feita pelos brancos, é claro. Se fossemos nós a fazê-la, seria preta. Dessa nossa madeira escura, dura como ferro. Mas também eu não gosto da cruz porque foi nela que Cristo foi crucificado como já disse... É uma má recordação!
PADRE: Então a senhora confirma o que anda dizendo por aí que Deus é negro?
KIMPA VITA: Deus de certeza que é negro. E mesmo Cristo não nasceu em Belém, mas aqui em Mbanza Congo... E foi batizado no Nsundi, não na Nazaré. E a mãe dele, Nossa Senhora, nasceu de uma escrava do rei Nzinga Mpangu. E foi também aqui que Deus amassou o barro para criar o homem com as suas próprias mãos...
Vita opõe-se ao Cristo “prisioneiro” de uma Igreja que tenderia a monopolizá-Lo, um Cristo que ultrapassa e transcende os quadros institucionais, todas as categorias religiosas e culturais unicamente familiares aos cristãos do Ocidente. Cristo é Aquele que em toda a parte precede o missionário (branco ou negro) e que está presente ma cultura de cada povo e de cada nação!
Padre: Você diz que os brancos têm origem numa pedra bruta chamada ‘fuma’ e que vocês, os negros, nasceram de duas árvores, uma negra e outra vermelha, a ‘nsanda’ e a ‘nkula’, que têm as raízes ligadas aos espíritos da terra, os ‘Nkisi-Nsi’. É isso? Ouvi bem?
Kimpa Vita: Ouviu! Filhos não são iguais aos pais?
Padre: Não entendeu a pergunta? Não foi isso que eu perguntei! Responda a pergunta, por favor!
Kimpa Vita: Deus sive natura! Deus é a natureza! Se Deus é a natureza porque nós não somos também iguais ao pai, nosso criador?
PADRE: Você foi concebida pelo seu “anjo da guarda” - Santo António? Você é virgem? Como pode ter sido concebida?
KIMPA VITA: O senhor está falando de virgem Maria ou de mim?
PADRE: De você!
SIMPA VITA: Se o senhor padre acredita que nossa senhora tenha sido concebida por Deus sendo virgem como não pode acreditar que eu tenha sido concebida, mesmo na condição de não virgem, por Santo António?
Padre: Isto é uma blasfêmia! Você não é Virgem Maria e Santo António por mais que seja santo não é Deus! Que confusão meu Deus! Como se não bastasse ainda diz que também é Santo António!
E continuou...
Padre: Se você diz ser Santo António como pode amamentar?
- Kimpa Vita: Se o senhor padre acredita que Deus é três: pai, filho e espírito santo... Como não acredita que eu possa ser dois: uma mulher e um homem?
Padre: Olha não me confunda! Você também é acusada de ter amamentado o seu filho!
Kimpa Vita: Isso é pecado? Que eu saiba padre, não constitui pecado nenhum amamentar uma criança! Nem nossa nem dos outros!
Padre: Mas a senhora sendo Santo António não pode amamentar... Se diz ser Santo António é homem, e os homens não amamentam. Então a senhora é um falso Santo António!
-Kimpa Vita: Na nossa cultura, padre, os santos não têm sexo!
Padre: O que é isso nossa cultura? Quer dizer que para si as Igrejas têm que ter tradições próprias? Que blasfêmia!
Kimpa Vita: Os Apóstolos sempre fundaram verdadeiras Igrejas com tradições próprias e nem por isso deixaram de ser unidas!
Padre: Como é possível estarem unidas com tradições próprias? Que incoerência
KIMPA VITA: Ninguém padre pode negar que continuando unidas entre si as Igrejas de Jerusalém, de Antioquia, de Corinto, de Éfeso, de Roma... Tivessem tido as suas tradições, que lhe vinham inspiradas pelo mesmo Espírito Santo a partir justamente das respectivas culturas...
-!!!_
PADRE: Dê exemplos!
KIMPA VITA: Pedro teria seguido para Roma via Antioquia e Tiago teria ficado em Jerusalém; João ver-se-ia estabelecido em Éfeso; Paulo foi o Apóstolo que fundou mais Igrejas; O Evangelista Marcos, discípulo de Pedro e Paulo, foi o fundador da Igreja em África etc. Todas elas, porém, com suas tradições construídas a partir dos costumes, da sabedoria e da cultura, da arte e das ciências dos respectivos povos!
...!!!...
Padre: Como você pode se considerar sacerdotisa... Santa... Sendo..
KIMPA VITA: Sendo mulher ou negra?
Padre: Não era bem isso... Que eu queria...
KIMPA VITA: Pois, Senhor Padre, desde o século III ao século IV a vida cristã nas regiões setentrionais de África foi intensíssima e esteve na vanguarda, tanto no estudo teológico como na expressão literária. Saltam-nos à memória os nomes dos grandes Doutores e escritores, como Orígenes, Sto. Atanásio e Sto. Cirilo, luminares da Escola de Alexandria; e, na outra extremidade mediterrânica de África, Tertuliano, S. Cipriano, e, sobretudo Sto. Agostinho, um dos espíritos mais brilhantes do cristianismo. E, entre outros tantos, não posso deixar de mencionar S. frumêncio, chamado Abba Salama, que, tendo sido sagrado bispo por Sto. Atanásio, foi o apostolo da Etiópia.
E Continuou:
... Estes exemplos luminosos e figuras dos santos Papas africanos Vitor I, Melquíades e Gelásio I, pertencem ao patrimônio comum da Igreja; e os escritos dos autores cristãos de África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento da história da salvação à luz das palavras de Deus, que não é branco e não tem sexo, nem nacionalidade! Portanto, como pode ver, eu não sou uma exceção... Se não pode haver sacerdotes e profetas negros como pode haver cristãos negros, Padre? - Retorquiu filosoficamente a oradora mais célebre do reino do Congo com verdadeiro primor de eloqüência
...!!!...
O padre sabia que ela a tinha razão e por falta de argumentos o padre furibundo, sentenciou:
- Bem senhores, ouviram com vossos próprios ouvidos que ela amamenta o seu bebê. Sendo assim está claro que é um “falso Santo António”. Assim decido que tanto ela como o seu rebento, filho do diabo, bem como os seus seguidores mais próximos sejam queimados por heresia.
Kimpa Vita despertou obviamente a ira dos missionários capuchinhos e das facções nobres adversárias do antonianismo e postulantes do poder real. O próprio D. Pedro IV, de início cauteloso e hesitante em reprimir o movimento, terminou por ceder às pressões dos capuchinhos italianos, ordenando a prisão da profetisa e de São João, "o anjo da guarda" de Kimpa Vita que os frades diziam ser seu amante. O estopim ou pretexto que levou à prisão de Kimpa Vita teria sido a acusação de que tinha um filho recém-nascido, cujo choro teria sido ouvido enquanto ela o amamentava em segredo, do que resultara o seu desmascaramento como "falso Santo António”. Kimpa Vita foi presa e condenada a morrer na fogueira como herege.
A tentativa da catequese missionária em convencê-la de “seus erros de apóstata” não surtiu efeito... Kimpa Vita embora condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo... Morreu santa... Morreu como “santo António do Kongo”... Como Santo António da África... Santo António do universo...
Em completo silêncio... Kimpa Vita mantinha-se de pé, amarrada ao um tronco com seu bebê ao colo... Kimpa Vita cristianizada, batizada com o nome de Dona Biatriz, agora volta os olhos para os céus, para o Deus dos brancos, o Deus dos invasores, e pergunta a esse Deus em profunda prece para que serve a água lustral da religião cristã “derramada sobre os civilizados”, já que eles não têm piedade da raça negra, da infeliz e triste raça africana. Por que não escravizam os homens brancos também? Não são, os negros e os brancos, todos os seres humanos e com o mesmo direito à vida, à liberdade? Por que os negros não podem ser santos? Por que Deus não pode ser africano? Virgem Maria? Santo António... Que diferença há entre os pássaros de todas as cores? E os animais e as florestas, as feras e as águas?
Agora a lenha já está acesa... Torturada pela dor, consumida pela sede... Seus lábios carnudos, ávidos de água, mesmo assim sorriem, em constante meditação... Mantém-se ainda em pé, amarrada a um tronco, até já não sentir nem dor nem sede, as olheiras tornavam-se cada vez mais profundas. Seu olhar tornava-se glacial, sempre que via algum membro da família real presenciando sua morte... Desdenhosamente crispava-se-lhe a boca, cada vez que, ao virar cabeça, topava com algum padre! A carne some-lhe das pernas, dos braços e das faces... Os dedos queimados e ressequidos tornavam-se nodosos, as olheiras tornavam-se cada vez mais profundas... Os olhos proeminentes... Começa a chuviscar... Com a água a gotejar-lhe os cabelos (mais não o suficiente para apagar o fogo...) por sobre as espáduas e bebê que está em seu colo, que começa a ser consumido pelo fogo... Ele, já desfalecido ainda tem um resquício de vida... Ainda se contorce... De dor... Chora muito... Seus bracinhos estão pegando fogo... Os quadris e as coxas de sua mãe já foram carbonizados... Daqui por uns minutos tudo se transformará em cinza... Em pó... A multidão chora sua partida...
A sentença foi executada pelos padres capuchinhos, em Mbanza Kongo, numa manhã, de um dia qualquer de 1708...
In “As mulheres que amo na História & as histórias das mulheres que amo” de João Portelinha -2010
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